A NOVA ONDA ORGÂNICA
FRASCOS DE PERFUMES E COSMÉTICOS EXPLORAM NOVAS ALTERNATIVAS DE PIGMENTAÇÃO

Revista EmbalagemMarca agosto 2006

Sempre atentas ao avanço de outros materiais sobre seus territórios, as vidrarias que atendem fabricantes de cosméticos e perfumes têm percebido que a competitividade de seus produtos está cada vez mais atrelada ás técnicas de decoração e pintura das embalagens de vidro. Provavelmente nunca em sua história a indústria vidreira do Brasil apostou tão alto nisso. Num cenário em que novos pigmentos podem signifiear fôlego extra para as vidrarias na disputa com o plástico e outros materiais de acondicionamento, a expressão do momento é “pintura orgânica”.

Disseminadas há bem mais tempo no mercado de impressão, tintas produzidas com pigmentos orgânicos vêm ganhando espaço crescente na pintura de frascos de vidro usados por fabricantes de perfumes e cosméticos. A versatilidade dessa aliernativa de decoração de embalagens. que atribui outro significado ao termo normalmente associado a lavouras cultivadas sem insumos químicos, ajuda a explicar a tendência.

Enquanto as tintas tradicionais. produzidas na maioria das vezes com componentes metálicos, conferem ao vidro cores uniformes e opacas, os pigmentos orgânicos, cujo uso começou a se intensificar entre as vidrarias brasileiras há cerca de dois anos, permitem explorar superlicies com degradês e eleitos translúcidos. “Com a tinta orgânica, a embalagem de vidro é efetivamente decorada, e não apenas pintada’’, define Marcos Antoniassi, gerente de negócios da Akzo Nobel.

Fabricante de especialidades químicas, a empresa fornece tintas orgânicas para as principais vidrarias e empresas de pintura de vidro do país. A despeito da boa aceitação, a estratégia é recente. Há apenas três anos a Akzo Nobel atua com tintas para decoração de embalagens de vidro. “É um segmento novo no Brasil, que tem grande potencial de crescimento”. avalia o gerente de negócios da empresa.

As boas perspectivas são ressaltadas na estratégia de outras empresas. É o caso da vidraria Wheaton, líder no mercado de cosméticos e perfumes do país. No inicio de 2005, a empresa. que sempre pintou suas próprias embalagens, fundou a Wheaton Decor para atuar no ramo de decoração de frascos de vidro. A unidade tem CNPJ próprio, e ganhou fôlego com a compra, há cerca de um ano, da operação de pintura de vidro da Megaplast. Helder Landy. diretor da Wheaton Decor, explica que o ponto alto do negócio foi a aquisição de um equipamento de pintura orgânica produzido pela italiana Metal3. “Estamos apostando muito alto no crescimento da demanda por pintura orgânica” diz Landy.

A possibilidade de gradação dos matizes e a maior variação de cores já fazem despontar previsões de que a pintura orgânica dominará o mercado de decoração de embalagens de vidro. No Brasil. porém, a técnica ainda responde por pequena parcela do setor. Mas outros fatores, como a transparência dos pigmentos, poderão fazer a pintura inorgânica, que representa a maior parte dos pedidos de decoração de embalagens de vidro para perfumes e cosméticos, perder espaço para os pigmentos orgânicos.

Segmentações
Na visão do diretor da Wheaton Decor, técnicas mais aprimoradas de pintura de embalagens de vidro vêm sendo favorecidas pelas crescentes estratégias de extensão de linhas adotadas pelos fabricantes de perfumes e cosméticos. Muitas segmentações são lançadas sob marcas guarda-chuva cujas embalagens adotam o mesmo molde dos produtos principais. Para diferenciar umas das outras, entra em cena a pintura orgânica, capaz de personalizar produtos e marcas. Exemplo disso vem do perfume Quasar Fire, bem-sucedida segmentação do tradicional Quasar, uma das mais importantes marcas no portfólio de O Boticário. Na versão mais recente, a pintura vermelha em degradê, feita pela Wheaton Decor, substituiu o tom azulado dos frascos do Quasar tradicional.

Outra amostra do potencial de destaque da pintura orgânica vem da colônia Linda Brasil, também do O Boticário. Neste caso, o frasco foi pintado de verde e amarelo, numa forma de diferenciar a extensão de linha do Linda tradicional. “Não se trata de uma maneira de economizar no desenvolvimento de um novo molde”, ressalva o diretor da Wheaton Decor. Para ele, a grande vantagem desse tipo ele aplicação é otimizar a exploração dos elementos já consagrados de uma marca forte, entre os quais está o formato do molde de sua embalagem.

Ambos pintados pela Wheaton Decor, os frascos do Quasar Fire e do Linda Brasil foram produzidos pela própria vidraria Wheaton. Mas a empresa de decoração do grupo Wheaton também pinta embalagens fabricadas por outras vidrarias. É o caso do frasco do perfume Eternus, recém-lançado pela Água de Cheiro. Importadas da vidraria italiana Bormioli Rocco, as embalagens chegaram aqui em apresentação flint, isto é, sem acabamento, e foram coloridas em degradê por processo de pintura orgânica pela Wheaton Decor. O projeto contou ainda com aplicações de serigrafia.

 

Atrito
No mercado de bebidas, aliás, a tradicional serigrafia não tem motivos para considerar a pintura orgânica uma ameaça. Como explica Carlos Alberto Ansolin, diretor da Deda Decorações, especializada em pintura de garrafas de bebida, nesse setor as linhas apresentam alta velocidade e “muito atrito”. Tais características, ele diz, praticamente inviabilizam o uso de tintas orgânicas no mercado ele bebidas. “As ganafas batem muito”, comenta Ansolin. “Esse tipo ele pigmento não apresenta a resistência ideal”, completa o diretor da Deda Decorações.

Entre os projetos recentes da empresa destaca-se a vodca Cristal. produzida pela Château Lacave. Fechada com tampas da Guala Closures e fornecida pela Saint-Gobain, a garrafa recebeu uma aplicaçào especial ele serigrafia, que substitui os rótulos e contra-rótulos do produto. A Deda Decoraçóes também foi responsável pela pintura das garrafas da Bohemia Confraria, cerveja premiun da AmBev que estreou no ano passado como edição especial. As vendas foram satisfatórias, e o produto deve voltar ao mercado nesteinverno, nas características garrafas com visual de cerâmica. O efeito é obtido com uma tinta esmalte especial, que se funde na superfície do vidro, tomando-o fosco. (ver EMBALAGEMMARCA 73, setembro de 2005). As garrafas da Bohemia Confraria também são fornecidas pela Saint-Gobain.

Casos assim sugerem que as técnicas de decoração de embalagens de vidro assumiram caráter estratégico. Para as vidrarias, os incrementos visuais da pintura orgânica e a criatividade atrelada a métodos mais tradicionais, como serigrafia, significam fôlego extra na disputa com outros materiais de acondicionamento, especialmente os termoplásticos. No lado das perfumarias, das indústrias de bebida e dos fabricantes de cosméticos, as novas tendências decorativas estão abrindo interessantes possibilidades de diferenciação visual, contribuindo para que suas marcas e produtos ganhem mais destaque nos pontos-de-venda.  (LH)