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Técnico químico, José
Manuel Sardo iniciou sua trajetória profissional na
Akzo Nobel aos 18 anos. Quatro décadas depois, resume,
tranqüilo, que já fez quase tudo na empresa, da
área técnica à de produção.
Atual diretor para a América do Sul da unidade de Tintas
Industriais, encabeça o desenvolvimento de novos negócios
no setor, entre os quais a entrada da companhia no segmento
de tintas para chapas de aço pré-pintadas.
Nesta entrevista, Sardo detalha o projeto que acompanhou desde
o início, há cinco anos, quando o cliente Companhia
Siderúrgica Nacional alugou uma modesta casa de dois
dormitórios ao lado do terreno que hoje abriga a linha
de produção de pré-pintados na sua unidade
de Araucária, no Paraná, e que deve ser inaugurada
em maio, atendendo as indústrias de construção
civil e de eletrodomésticos.
Com essa estréia, que mereceu investimentos de US$
1 milhão em treinamento da equipe e adequação
da fábrica, a Akzo Nobel Tintas Industriais pretende
alcançar a liderança no segmento de pré-pintados
e propiciar o incremento de 25% no faturamento da unidade
brasileira, o que representará um salto importante
sobre os 10% de aumento conquistados no ano passado.
O diretor para a América do Sul da Akzo Nobel Tintas
Industriais também na lista das ações
que estão sendo implantadas no intuito de tornar a
divisão ainda mais focada em especialidades, entre
elas a importação de tecnologia de ponta e a
prestação de serviços com alto valor
agregado.
Miriam Mazzi
Paint & Pintura: Que balanço
pode ser feito de 2002?
José Manoel Sardo:
Eu diria que foi um ano bom. Registramos um crescimento de
10%, percentual que fica até um pouco fora da realidade
de retração que estava sendo mostrada pelo mercado.
Paint & Pintura: O segmento
de tintas industriais, historicamente, não é
que mais cresce...
Sardo: Estou
analisando de forma pontual. Quando falamos em indústria
em geral, pegamos uma grande fatia de mercado. A Akzo Nobel
atua em especialidades, principalmente madeira, plásticos
decorativos (cosméticos, telefones celulares, esporte
e lazer) e, mais recentemente, fruto da linha para pré-pintados
que a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) construiu,
devemos estrear, em maio, no segmento de coil coating.
Paint & Pintura: Esse fornecimento
representará aumento de quando no volume produzido
pela unidade?
Sardo: Estamos
considerando aumentar cerca de 25% pois, além da CSN,
estamos preparados para atender um mercado potencial estimado
em 400 mil toneladas/ano de chapas de aço pré-pintadas.
Paint & Pintura: Para assegurar
esse incremento no volume de produção será
necessário investir no aumento da fábrica?
Sardo: O projeto
de coil coating começou há cinco anos e maio
próximo será o starting point. Investimos US$
1 milhão no total do projeto, que inclui a adaptação
de parte da fábrica para a produção dessa
nova tecnologia e até viagens de treinamento, entre
outras coisas.
Paint & Pintura: Tecnicamente,
como pode ser definida essa nova tecnologia?
Sardo: Trata-se
de uma aplicação em linha. As chapas são
pintadas por rolos numa velocidade de cem metros por minuto.
Por ser um processo muito rápido, as tintas têm
de ter características de alta resistência a
intempéries, pois um dos principais focos será
a indústria de construção civil metálica.
Ou seja, ferro e concreto serão substituídos
por metal pré-pintado, portanto a tinta deverá
ter resistência de dez anos, não poderá
descorar. Estamos levando todo esse desenvolvimento para ser
testado em Miami (EUA), que é um ponto referencial
para se ter exposição às intempéries
naturais.
Paint & Pintura: O segmento
coil coating passa a ser o principal negocio da Akzo Nobel
Tintas Industrias?
Sardo: Não,
agregará. Nossa intenção é, em
um ano, alcançar a liderança do segmento coil
coating, o que permitirá à unidade brasileira
de tintas industriais aumentar em 25% seu faturamento neste
ano. Mas as três áreas que estamos focando -
madeira, plásticos decorativos e coil coating têm
importância estratégica para a companhia.
Paint & Pintura: Pesou
na escolha dos segmentos eleitos pela Akzo Nobel Tintas Industriais
o potencial que eles representam em termos de consumo?
Sardo: Sim.
No caso do coil coating, estimamos um mercado potencial de
400 mil toneladas/ano. No setor de tintas para plásticos
decorativos, pretendemos repetir no Brasil o desempenho que
a companhia registra nos mercados americano e europeu, onde
figura como um dos principais fabricantes de tintas para materiais
plásticos.
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Além
disso, o segmento de cosméticos tem apresentado especial
importância para os interesses da companhia por ter
apresentado crescimento médio anual de 10%. Na área
de tintas para madeira, o interesse crescente do mercado americano
nos móveis brasileiros tem intensificado as exportações
e levado os fabricantes de móveis nacionais a investirem
em produtos de alta tecnologia, que lhes garanta competitividade,
e isso nos favorece. Não é à toa, portanto,
termos registrado crescimentos de 20% nas vendas de tintas
para madeira no ano passado e projetarmos resultado 25% superior
neste ano.
Paint & Pintura: Há dois anos a Akzo Nobel
iniciou um projeto de reposicionamento na área de tintas
industriais, visando concentrar esforços nas especialidades.
Esse trabalho continua em 2003?
Sardo: Vamos
continuar a especialização nesses três
segmentos. Estamos fazendo uma espécie de assepsia:
saindo dos mercados que não nos interessam e nos concentrando
nos de madeira, plásticos decorativos e coil coating.
Paint & Pintura: Quais
são os segmentos que não interessam mais?
Sardo: Em geral,
commodities, pois a concorrência é muito grande.
Domínio público de tecnologia não nos
interessa. Temos de usar nossa qualidade para nos diferenciarmos,
ou seja, oferecer serviço e tecnologia mundial.
Paint & Pintura: O sr.
disse que a estratégia da companhia é ajustar
o foco em especialidades, usando como ferramentas de diferenciação
a tecnologia e os serviços. Como a companhia pretende
se destacar na prestação de serviços?
Sardo: No caso
de madeira, oferecemos assistência técnica e
contamos com um especialista americano, que dará treinamento
a todo nosso pessoal na montagem de linhas de pintura de móveis
direcionados ao mercado americano, além de oferecer
consultoria sobre as tintas que devem ser usadas, etc. Esse
profissional trabalhará em parceria com o cliente e
também nos trará suas necessidades para que
as satisfaçamos. Em São Bento do Sul (SC), por
exemplo, que é um pólo moveleiro importantíssimo,
montamos o Color Studio, onde ministramos treinamento, fazemos
desenvolvimento de cores e expomos peças.
Na parte de coil coating toda a tecnologia veio de fora e
os nossos técnicos foram treinados nos Estados Unidos.
Trata-se de uma equipe muito enxuta - são duas pessoas
na assistência técnica, outras duas no laboratório,
duas em vendas e um gerente, pois toda linha é automatizada.
No segmento de plásticos, a tecnologia também
veio de fora, principalmente da França.
Paint & Pintura:
Quais as novidades que a Akzo Nobel tem reservadas
para o segmento de madeira?
Sardo:
O grande foco atual é o desenvolvimento de tintas para
atender o nível americano de exigência qualitativa.
A indústria moveleira nacional ainda precisa se adaptar
aos padrões de qualidade americanos. Normalmente são
moveis envelhecidos, com cores de madeiras especiais. Para
isso, contratamos um especialista americano que permanecerá
no Brasil durante dois anos para dar treinamento e desenvolver
linhas de pintura. Estamos apostando muito nesse segmento,
pois temos como potenciais fornecedores mundiais as indústrias
chinesa e brasileira. Apesar de a China ter volumes altíssimos,
a segunda alternativa de exportações para os
Estados Unidos é o Brasil.
Paint & Pintura: Qual é
o percentual de participação das exportações
nos negócios da companhia?
Sardo: Estimamos
que o volume total de exportações de tintas
em geral em 2003 baterá na casa dos US$ 1,5 milhão
no ano passado. A área de madeira da Akzo participa
com 35% desse volume.
Paint & Pintura: O mercado
de tintas para plásticos decorativos vem crescendo
bastante nos últimos anos...
Sardo: Sim,
tanto que participaremos da Fimma (6ª Fimma Brasil, realizada
de 18 a 22 de março, em Bento Gonçalves, no
Rio Grande do Sul, contou com a participação
de mais de 600 expositores de 23 países), onde exporemos
tintas decorativas para embalagens de cosméticos, esmalte
de unha etc., telefones celulares, teletrônicos (gabinetes
de televisão), puxadores de móveis etc.
Paint & Pintura: Qual a
participação de cada um dos segmentos no faturamento
da Akzo Nobel Tintas Industriais?
Sardo: Hoje
a participação de coil coatings é zero.
No ano que vem poderemos analisar o desenvolvimento do start
up. Atualmente, 75% são representados pelo setor de
tintas para madeira e 25 %, por plásticos. Madeira
está consolidando seus volumes e o crescimento no segmento
de plásticos ainda é um ponto de interrogação.
Paint & Pintura: Do ponto
de vista tecnológico, o que o sr. destaca como evolução
nos últimos cinco anos no segmento de tintas industriais?
Sardo: O surgimento
de sistemas solúveis em água para madeira, ainda
limitados às divisórias de madeira compensada.
Cito, também, os vernizes ultravioleta, que estão
tendo uma boa aceitação; e novidades como as
tintas em pó para madeira, que ainda estão em
testes. Na área de tintas decorativas plásticas,
destaque para as tintas UV e as solúveis em água.
Na verdade, a tecnologia está um pouco parada, pois
houve um boom há pouco tempo e agora é normal
que o ritmo dos novos desenvolvimentos seja reduzido. O coil
coating é uma nova tecnologia, mas há outra
empresa que já o fabrica no Brasil. Portanto, podemos
ter mais qualidade, mas a base é semelhante.
Paint & Pintura: Diante
de mercados mais desenvolvidos, como o Brasil se posiciona
no mercado de tintas industriais?
Sardo: Pelo
menos no caso de nossa divisão industrial estamos conectados
com o mundo. O que precisamos e que dependa da tecnologia
externa é possível trazer em, no máximo,
24 horas. Eu diria que somos comparáveis ao resto do
mundo, exceção feita a determinadas especialidades.
Paint & Pintura: A área
de tintas industriais caminha no mesmo compasso das políticas
ambientais?
Sardo: Com certeza.
O solúvel em água da Duratex, por exemplo, foi
um desenvolvimento da Akzo Nobel dentro desse conceito. Nós
recolhemos e incineramos todos os resíduos gerados
pelo processo e tratamos a água. Além disso,
os demais desenvolvimentos caminham no sentido de aumentar
a quantidade de sólidos na formulação,
o que significa menos solvente. Resumindo, acredito que atualmente
haja uma grande conscientização ambiental. Fora
isso, precisaríamos ter a contribuição
de tecnologias mais limpas. Antigamente, o ambiente nunca
era considerado quando se desenvolvia uma tecnologia, hoje
os dois caminham juntos.
Paint & Pintura: Além
do mercado brasileiro, em quais outros mercados sul-americanos
a Akzo Nobel Tintas Industriais tem planos de investimentos?
Sardo: Por enquanto,
estamos focando apenas Chile e Argentina. Temos produção
para madeira e coil coating na Argentina, onde registramos
um crescimento de cerca de 20% em 2002. No Chile estamos pesquisando
e a expectativa é ter produção local
nos segmentos de madeira e coil coating ainda neste ano.
Paint & Pintura: Qual é
a expectativa da Akzo Nobel Tintas Industriais em relação
a 2003?
Sardo: Começamos
mal, janeiro e fevereiro foram dois meses terríveis.
Passou o Carnaval e sentimos uma motivação diferente.
Sobre o ano, tenho um sentimento positivo; não quero
ser otimista, pois temos um cenário mundial crítico,
embora o Brasil já tenha dados inúmeras provas
de que sabe trabalhar na crise. Porém, se o cenário
da guerra se confirmar, sofreremos duras conseqüências,
pois já vivemos com especulações em vários
setores, como os de fretes e de seguros; não há
contêiner para embarcar as mercadorias, ou seja, vivemos
num clima de pré-guerra.
Acredito que existam dois cenários, o com guerra e
o sem guerra. No primeiro caso, penso que teremos custos maiores
e dificuldade na disponibilidade de matérias-primas.
Inclusive já estamos sentindo aumento de preços
na origem. Como resultado, o mercado cairá.
Sem guerra, imagino que teremos um bom crescimento, inclusive
no volume de exportações. Pelos primeiros indicadores
do ano, 2003 tem tudo para ser um ano interessante.
Revista PAINT & PINTURA - Março 2003 |